O Grupo de Internos de Medicina Geral e Familiar da Unidade de Saúde de ilha de São Miguel pretende despertar a comunidade açoriana para a discussão aberta sobre a depressão e o suicídio através da campanha com o mote “Se estás à procura de um sinal para viver, é este!”, que será oficialmente lançada hoje, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.
O alerta é da “International Covid-19 Suicide Prevention Research Collaboration” que reporta para o possível aumento das taxas de suicídio, à medida que a pandemia evolui, bem como para os seus efeitos a longo prazo nos grupos mais vulneráveis. Nesse contexto, defendem as autoridades de saúde competentes torna-se premente adoptar medidas concretas no âmbito da prevenção do suicídio.
Em declarações ao Diário dos Açores, Sara Ponte, a Vice-Presidente da Direcção da ARTAC - Associação Regional para a Promoção e Desenvolvimento Sustentável do Turismo, Ambiente, Cultura e Saúde, explica é que “importante não esquecermos o período que estamos todos a viver e o impacto que a pandemia tem na saúde mental de todos nós”, referindo-se, por exemplo, ao isolamento social e às incertezas sócio-económicas” resultantes do desemprego, do lay-off, do teletrabalho e da telescola.
Neste momento, adverte Sara Ponte, o próprio período que se avizinha de regresso às aulas físicas e as incertezas que daí advêm, “como o temer ficar infectado e infectar os entes mais próximos, são pressões sociais determinantes que causam sofrimento psicológico e emocional”. Neste sentido, adianta, “infelizmente este sofrimento, muitas vezes, é desvalorizado pelo próprio, pela família e pela comunidade e é nesta desvalorização que reside o estigma das perturbações mentais”, frisa, dando conta que é sabido “que é muitas vezes este estigma, associado às perturbações mentais, que impede que a pessoa procure ajuda, o que impossibilita que quem está perto de alguém que está em sofrimento psico-emocional que valorize e que saiba auxiliar e orientar esta pessoa para pedir ajuda”.
A campanha que arranca hoje é inspirada na iniciativa “Setembro Amarelo” e pretende combater o estigma associado às perturbações mentais, um problema de saúde prevalente na Região Autónoma dos Açores.
Conforme indicou Sara Ponte, “o suicídio é, sem dúvida um problema de saúde pública ao nível mundial, sendo que Portugal e a Região Autónoma dos Açores não ficam atrás nesta problemática”. “Os Açores apresentam taxas globais de suicídio superiores às nacionais, a rondar os 12,5% por cada 100 mil habitantes/ano, enquanto a média nacional situa-se entre os 9,5% e os 10% por cada 100 mil habitantes/ano. Para além disso, os Açores são a Região do país com as taxas mais elevadas de suicídio nas faixas etárias mais jovens entre os 15 e os 29 anos de idade”, revelou a Vice-presidente da ARTAC.
Em termos mundiais, a Organização Mundial de Saúde, afirma que o suicídio mata mais de 800 mil pessoas em todo o mundo todos os anos. A cada 40 segundos há uma morte por suicídio que está entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo e mata mais que o cancro da mama e a malária, por exemplo.
Entre as faixas etárias mais jovens, o suicídio corresponde à segunda principal causa de morte.
Por outro lado, Sara Ponte adiantou também que esta campanha visa ainda lançar um olhar sobre quem sofre de uma perda por suicídio, alertando que é importante não esquecer “que existe uma média de 10 pessoas que são severamente afectadas por esta perda, nomeadamente familiares e amigos. Sabe-se que o luto por suicídio está envolto num sofrimento emocional muito grande, com sentimentos de culpabilização, de grande frustração e, muitas vezes, este sofrimento é vivido no silêncio no seio da comunidade ou entre familiares e há que quebrar com este medo e com o tabu de se falar sobre o suicídio, sobre o sofrimento emocional e sobre aquilo que as pessoas estão a pensar”, adverte.
Neste sentido, Sara Ponte explica que “esta campanha pretende precisamente romper com este estigma, informar as pessoas no sentido de as colocar a reflectir acerca destas problemáticas e também no sentido de haver uma mudança de atitude da população”, sendo que esta “campanha procura capacitar as pessoas para saberem identificar os diferentes factores de risco, os chamados sinais de alerta, que percebem o suicídio e que identificam quem está em risco, capacitando também as pessoas para saberem auxiliar perante uma pessoa que está em risco de suicídio”.
Para além disso, esta iniciativa vai ainda divulgar contactos de apoio emocional (como a Linha SOS Voz Amiga) e o número europeu de emergência para situações que exigem uma actuação imediata.
Esta campanha foi alvo de uma avaliação conjunta pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (Delegação Açores), Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores, Médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar e Psicólogos da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel, sendo que a produção contou com o apoio da Associação ARTAC, Ordem dos Médicos, EGA e Câmaras Municipais de Ponta Delgada e Ribeira Grande.