Obras pouco  Graciosas
Pedro Castro

Obras pouco Graciosas

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Visitei repetidamente muitas ilhas Açorianas até um dia fazer o merecido “desvio” para conhecer uma das mais pequenas e menos conhecidas do arquipélago: a Graciosa. Foi a única ilha que descobri exclusivamente em bicicleta já que tem a dimensão ideal e um relevo pouco acentuado. Tenho poucas recordações do aeródromo em si, mas gostei do fato de ser possível caminhar da aerogare até Santa Cruz em 20 minutos. Enquanto programava a viagem desde o Continente, reparei também que a ilha tinha poucas ligações aéreas - apenas para Ponta Delgada e Terceira para onde, aliás, se chega facilmente de barco. Durante a minha estadia em 2019, o vício profissional fez com que notasse que, por vezes, os dois voos previstos para um dia acabavam agrupados num só voo. Não me ocorreu que o problema da Graciosa fosse a necessidade de ter capacidade para dois Dash da SATA parados na sua pista. Tendo em conta que a SATA tem apenas 6 aviões Dash na sua frota e que existem 9 ilhas, as probabilidades de dois Dash terem de aterrar na pequena Graciosa à mesma hora serão puramente hipotéticas. A programação para esta ilha poderá facilmente ter em conta esta limitação teórica – porque na prática o aeródromo está vazio na grande maioria do tempo. Num ano bom, desembarcavam na ilha 30’000 passageiros, ou seja, uma média de 80 passageiros por dia – que corresponde exatamente à lotação máxima de um Dash Q400 da SATA. E isto numa ilha que conta apenas com 4’300 habitantes, sendo uma das mais afetadas pelo abandono da população.
O que realmente me pareceu é que a Graciosa tem uma infraestrutra e pontos de interesse de grande relevo, mas que está esquecida e que se encontra excluída do périplo turístico Açoriano. Não é por falta de águas termais, de uma doçaria de renome, de uma caldeira convidativa, dos caricatos burros da Graciosa e de um variado alojamento para todos os gostos: entre uma estadia nos moinhos flamengos da ilha, numa guesthouse, no Inatel ou num hotel-resort de 4 estrelas com bastante capacidade, inclusivé para eventos, o que não falta é escolha. Dá a clara impressão que foram feitos os investimentos públicos e privados adequados, mas que falta “apenas” as pessoas conhecerem e incluirem a Graciosa na sua viagem aos Açores.
Perante este cenário estatístico, social e económico, foi com a maior surpresa que li a notícia da assinatura pela SATA – Gestão de Aeródromos de um contrato no valor de mais de 6 milhões de Euros para a demolição e construção de uma nova aerogare do aeródromo da ilha Gracisoa. Segundo comunicado do Governo Regional, esta empreitada serve para:
- dimensionar a aerogare para a utilização simultânea de 120 passageiros – ou seja, 6 milhões de Euros para algo que acrescenta muito pouco à atual capacidade e para algo que, na verdade, não serve para nada. Na maioria das horas do dia, a atual aerogare encontra-se vazia, ou seja, não existe um problema de capacidade, muito menos um problema que valha 6 milhões de euros;
- a utilização máxima de 120 passageiros em simultâneo não permite a utilização simultânea de dois Dash Q400 da SATA lotados a 100% (o que corresponderia a 160 passageiros)...ou mesmo a 80%.  
Qual a utilidade prática e transformadora da nova aerogare? A utilização simultânea potencial de 120 passageiros em vez dos 80 atuais vale 6 milhões de euros? E quando é que essa utilização simultânea acontecerá na prática? A antiga aerogare era o maior entrave na chegada de mais passageiros à ilha?
Se o que se pretendia era estimular o número de passageiros para a Graciosa de forma a dinamizar e beneficiar quem nela trabalha e nela quer viver ou investir, não é a nova aerogare que vai resolver. Existem várias formas de se criarem estes fluxos e ter um impacto na economia local e na conetividade, nomeadamente através de um plano de incentivo que poderia incluir os operadores turísticos, cooperação com outras ilhas na mesma situação e voos especiais Graciosa-Continente. Tudo isso por menos de 300 mil euros!
A título puramente comparativo, gostaria de mencionar que o Governo Regional da Madeira conta mudar radicalmente a marina do Funchal por menos de 5 milhões de Euros para um total de área edificada de três mil metros quadrados e com exigências muito altas. A ideia é tornar este lugar num espaço de excelência, icónico, de prestação de serviços – no fundo, uma montra da cidade que atraia turistas, emprego e negócio. Essas, sim, são obras com impacto e...graciosas!

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