As Festas regressaram!

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Opinião

Sempre me impressionaram os “ rios de gente” - a expressão é do Cardeal Tolentino de Mendonça, pensador, escritor e poeta de muito mérito, que este ano veio do Vaticano presidir às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres - que seguem atrás do andor, na Procissão da Mudança. Observo a multidão desde há anos do alto de uma varanda, no edifício sede do Grupo Ilha Verde, reconheço muitos e eles a mim, vindos de perto e de longe, quase todos levando círios, alguns transportando-os ás costas, em manifesto esforço, com a ajuda de algum parente ou amigo. Que terríveis aflições explicam tais sacrifícios e que grande poder de operar milagres, sim milagres, ao longo dos séculos e ainda hoje em dia, justificando o título com que identificamos a Veneranda Imagem, para todos os Açorianos, mas de uma forma muito especial para os Micaelenses, verdadeiro ícone do Cristo da nossa fé ancestral!
Desde manhãzinha, e apesar da pouca simpatia com que alguns, mesmo embatinados, olham para tais penitências, à volta do Campo de São Francisco, é um desfile ininterrupto de pessoas de joelhos, rezando e agradecendo graças recebidas. Os jornais registaram mais uma vez  imagens de pessoas em prece, delas se destacando, pela beleza do gesto, a de uma criança surpreendida pelo fotógrafo no momento em que limpa o suor da testa do seu Pai, que se arrasta de joelhos, num momento de pausa para descansar, apoiado sobre as mãos, ostentando enormes tatuagens em  ambos os braços. A foto não tem assinalado o seu Autor, mas devia, e merece figurar entre as figuras icónicas da nossa geral devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, ao lado da que representa o Papa São João Paulo II, também ajoelhado no duro chão, que não no coxim bordado que serviu na Visita Régia, em 1902, num diálogo de oração diante da Imagem no seu andor florido.
No Domingo do Senhor é a mesma coisa, sobretudo nas inumeráveis pessoas, já de há muito, homens e mulheres, que ocupam o espaço da Procissão outrora reservado à onda negra das “promessas” femininas, com as suas mantilhas na cabeça, em alguns casos cobrindo o próprio rosto. Lá estão de novo os círios, as crianças levadas ao colo, os grupos de apoio a algum penitente em maior rigor. E isso apesar de quase ninguém conseguir ir vendo o andor durante a maior parte do percurso, pois há sempre gente a entrar na procissão, logo depois de terem trocado olhares com a Imagem que passa aos ombros dos membros da Irmandade, eles também dando exemplo de dedicação e sacrifício, suportado com gosto e com devoção.
Este ano houve alterações nas praxes costumeiras, justificadas pelos restos da pandemia, que ainda persistem. Mas é óbvio que as alterações têm ocorrido ao longo dos séculos e é natural que assim seja. Por mim senti a falta daquele sobressalto ao ver o andor pela primeira vez, na saída da portaria do Convento, na altura da Mudança, quando as notas do hino, que sempre nos comove, são abafadas pelo estralejar dos foguetes e dos morteiros, anunciando a todo o Povo, no Campo e na cidade, que o Senhor Santo Cristo dos Milagres está cá fora e espera por nós. É que agora a Imagem é mantida durante todo o ano no meio do Coro Baixo, num simulacro do andor, e não no seu camarim no altar da capela mandada construir pela Madre Teresa da Anunciada, a iniciadora deste culto pluricentenário, cuja manutenção e força são já em si mesmos, para mim, testemunhos de santidade... Mas isso é uma impressão pessoal e haverá outras totalmente opostas e também legítimas!
Também  não simpatizava com a abertura do acesso ao Coro Baixo e à capela do Senhor Santo Cristo em estilo de circuito turístico, com paragem de autocarros com visitantes à porta do Convento, na Avenida Roberto Ivens. O Santuário deve ser certamente um centro de  espiritualidade e de oração; mas a banalização, quebrando o resguardo, corre o risco de redundar na diminuição da  aura mística que sempre tem rodeado a Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Repito: é uma opinião e outras haverá, porventura até mais razoáveis!
As medidas anti-Covid foram invocadas para justificar o desaparecimento do “Cortejo Cívico”. Detesto esta expressão, que nunca utilizei. As Autoridades incorporam-se na Procissão, conforme uma tradição muito antiga e a convite da Mesa da Irmandade, responsável pelas festas exteriores, numa manifestação da capacidade e do poder laical e secular. Se alguns o fazem por soberba e para se mostrarem, num cortejo de vaidades totalmente fora de tom com o acto de culto religiosos de que se trata, pior para eles. Lembro-me bem de advertir os Membros do Governo e os Deputados do PSD/Açores, ainda antes de entrarem no cortejo, para que não fossem conversando uns com os outros ou olhando para as janelas, havendo até quem não comparecia por não ter convicções ou prática religiosa, o que sempre respeitei; e numa altura em que o Presidente da República Ramalho Eanes veio incorporar-se na Procissão, disse-lhe, ainda no adro da igreja, que não estranhasse que as pessoas não o saudassem nem o aclamassem, por se tratar de uma manifestação religiosa, na qual se esperava que os crentes fossem desejavelmente rezando. Em coerência com esse conceito, a Mesa da Irmandade é que fechava a Procissão, atrás de todos os seus convidados, a quem António Clemente Costa Santos, empunhando a sua vara de Provedor, saudava cordialmente, quando desciam do adro para iniciar a caminhada, desejando “Boa Viagem!”

João Bosco Mota Amaral

* Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado 
Acordo Ortográfico.)     

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