Diário dos Açores

E se a força laboral da COFACO fosse masculina?

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A COFACO é uma empresa conhecida de todas e todos nós. O seu atum faz parte das mesas desta região há largos anos. Poucos serão os adultos de hoje que, na infância, não foram à loja (venda) a mando da sua mãe, comprar aquela lata de atum que com umas batatas e uns ovos cozidos fazia o almoço ou o jantar daquele mesmo dia.
Mas, esta empresa é também conhecida por problemas ambientais provocados por irregularidades nas descargas, na fábrica de atum de Rabo de Peixe, pelo desemprego resultado do encerramento das fábricas da Horta e Madalena e pela força do trabalho feminino que há anos mantém a essência do sabor e a imagem do atum da COFACO.
Não é propriamente ingenuidade, por parte de uma empresa deste género, a contratação de mulheres para este trabalho. A elas não lhes cabe um cargo de chefia, nem um lugar na administração (salvo raras exceções. Relembro que a União Europeia acordou uma quota que obriga as empresas dos estados-membros a terem 40% dos cargos administrativos ocupados por mulheres, em 2026. A medida visa melhorar a igualdade de género e aumentar a representatividade. Estamos no século XXI e ainda persiste a necessidade do sistema das cotas...). Às mulheres cabe o serviço árduo da limpeza do peixe, da preparação e do enlatar do peixe.  Ali, horas a fio, de pé (muitas vezes), de faca em riste, têm nas suas mãos o trabalho da matéria-prima, que depois é delícia para quem aprecia. São as “manipuladoras”. É da força deste trabalho feminino, mal remunerado, que a COFACO soma lucros.
Foi trazido a público que as mulheres que trabalham nesta empresa, em Rabo de Peixe, não têm possibilidade de progressão na carreira profissional de manipuladora. Isto, claramente, significa a desvalorização profissional, falta de dignificação e de motivação das trabalhadoras que desempenham funções nesta categoria.
Ou seja, a carreira de Manipuladora é uma categoria profissional estanque, o que impede a progressão a nível remuneratório, na mesma categoria profissional. Desta forma, estas trabalhadoras, enquanto permanecem nesta categoria, ganham sempre o salário mínimo e mesmo que sejam negociados aumentos, elas não beneficiam destes aumentos.
Em termos práticos, 85% dos trabalhadores da COFACO só têm aumentos salariais quando o salário mínimo é atualizado. É indigno que uma pessoa que trabalha trinta, quarenta ou cinquenta anos, aufira sempre o salário mínimo. O caminho para combater a pobreza, para combater as desigualdades sociais, para melhorar a vida das famílias, é inseparável da valorização dos salários, das reformas, das prestações sociais, da defesa e do reforço dos direitos laborais.
Conta que a primeira manifestação feminina terá acontecido no ano 204 a. C., quando um grupo de mulheres decidiu sair à rua, vindas de diferentes cidades do império romano, exigindo o fim das medidas de austeridade impostas há 20 anos antes. Somente 2000 anos depois se assistiu a outra manifestação feminina com as Sufragistas (infelizmente, só mencionadas para situações do politicamente correto).
Que estas mulheres, força laboral da COFACO, saiam à rua, lutando pela dignidade salarial a que têm direito. Esta empresa não vive sem o vosso trabalho. Esta empresa não lucra sem a vossa labuta!
E se a força laboral da COFACO fosse masculina? Seriam denominados de histéricos se ousassem manifestar a sua luta?

* Deputada do BE/Açores na ALRAA

Alexandra Manes*

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